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Onde estou: | Janus 1999-2000 > Índice de artigos > Dinâmicas e tendências > Território, sociedade e cultura > [Situação da língua portuguesa no mundo] | |||
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ESTE ARTIGO CONTÉM DADOS ADICIONAIS Segundo estimativas do início da década de 80, com base em levantamentos e projecções anteriores, e que têm em conta a necessidade de, em alguns casos, ser preciso falar de "famílias de línguas" e não de idiomas claramente unificados, a família chinesa (com o mandarim à cabeça) representava 900 milhões de pessoas, a família indiana indo-europeia (com o hindi à cabeça) 450, o inglês 369, o espanhol 225, o russo e o bielorrusso 170, o português 133, o japonês 120. Estas eram as línguas ou famílias de línguas faladas, cada uma delas, por mais de 100 milhões de pessoas, no mundo, como línguas maternas. O francês representava então 95 milhões, o alemão e o árabe 85. Apesar da evolução destes números no último quartel do século, a posição relativa de cada uma das componentes deste conjunto não se alterou. De acordo com a projecção da União Latina para o ano 2000, será de 230 milhões o número de pessoas que, no fim do milénio, falarão português. Este salto fica a dever-se, como dissemos, ao fenómeno demográfico brasileiro, que corresponde à dimensão territorial do país: o Brasil estende-se por 8.511.189 km2, ocupando quase metade da América Latina. Duas das suas cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, já contavam nos anos 80 mais de cinco milhões de habitantes cada uma, seis outras (Recife, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Curitiba e Brasília), mais de um milhão, e 30 outras mais de 100 mil. Deduzida das projecções da União Latina, a distribuição geodemográfica do português é a seguinte: a sua maior implantação (85 % do total de locutores) é sul-americana, e é o Brasil que a determina; a segunda é europeia, sobretudo se lhe agregarmos o peso da diáspora portuguesa; a terceira é africana (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe); a quarta, residual, é asiática (Timor e Macau). A soma dos locutores não brasileiros do português representará então um máximo de 30 milhões de pessoas -15 % do total. Quanto a Portugal, país de origem desta língua, e que a mundializou a partir do séc. XVI, a sua população é de cerca de 10 milhões de pessoas, embora se avalie em mais de quatro milhões o número de portugueses expatriados e que constituem a permanente diáspora nacional (emigrantes de 1ª, 2ª e 3ª geração; o segundo e terceiro grupos devem ser considerados mais precisamente "luso-descendentes"; a sua relação com a língua portuguesa diminui à medida que se integram localmente). Comparativamente com o português, o espanhol (castelhano) contava, segundo dados de 1982, 230 milhões de falantes na América Latina, 38 milhões em Espanha e cerca de 20 milhões nos E.U.A. (estados do Sul e colónias de porto-riquenhos), Filipinas, Médio Oriente (judeo-espanhol) e África (Ceuta, Melilla). Total nessa data (com base em levantamentos anteriores): 288 milhões de falantes. Terão ultrapassado os 300 milhões poucos anos depois. A posição de um idioma é definida pelo seu carácter de língua materna, mas também pelo seu uso veicular, ou seja, como língua segunda de comunicação para populações cuja língua materna é outra. Do ponto de vista demográfico, as principais línguas veiculares são o mandarim e o hindi. O francês, na África ocidental, e o inglês, na Índia e na África austral, são veiculares. É o caso, em menor escala, do português em Angola e Moçambique. Outros exemplos de línguas veiculares são o haussa na Nigéria e seus vizinhos, o suaíli na África oriental, etc. A vertente veicular ganhou novo contorno decisivo no mundo de hoje: ao longo do séc. XX, o inglês beneficiou do seu progressivo predomínio como língua franca na vida económica e política e na indústria de conteúdos (mercado mundial do livro, audiovisual globalizado e outros sectores da comunicação), e é agora a língua internacional por excelência (embora não em termos demográficos), como outrora aconteceu, na Europa, primeiro com o latim e depois com o francês.
Situação nos PALOP’s Não existe quantificação fiável sobre o número de falantes de português nos países africanos de língua oficial portuguesa. Entre estes, Angola é primeiro em extensão (1.246.700 km2 na transição entre a África central francófona e a África austral anglófona) e segundo em população (entre oito e dez milhões de naturais). A população é maioritariamente bantu (Ovimbundus, a etnia-chave, Mbundus, a etnia de base do MPLA, e Bakongos; em menor número, Linda-Quiocos ou Tschokwe, Ganguelas, Nhaneca-Humbe e Ovambos). As línguas bantos são ininteligíveis entre si, e aos bantos acrescentam-se, em pequeno número, Bosquímanes. O português, língua colonial, foi "naturalmente" usado pelo MPLA e por outros partidos como factor de coesão nacional. É a língua do Estado e da administração. Não se conhece o número de falantes de português no país, mas são uma parte significativa da população. Moçambique é o segundo PALOP em extensão (de valor incerto: entre 783.000 e 801.590 km2, devido à indefinição da parte moçambicana do lago Niassa ou Malawi) e o primeiro em população (15 milhões prováveis em 1988). Os bantos são maioritários; distinguem-se pelo menos dez etnias importantes. A maior, a Macua-Lomué (Makua-Lomwe), representa 40% da população. Depois vêm os Ajáua (Yao), Makonde, Nianja, Chewa, Swahili, Shona e seus aparentados, Chope, Bitonga e Thonga. À pulverização étnico-linguística sobrepõem-se populações de origem marave e shona, mas mestiçadas por influência de árabes, indianos, portugueses. Como em Angola, depois da independência, foi o partido do poder – a Frelimo – que promoveu o português como língua de coesão nacional, porque as línguas das etnias são, igualmente, mutuamente ininteligíveis. O país aderiu em 1996 à Commonwealth, abrindo-se mais à influência anglófona. O português só será língua materna para 10% dos moçambicanos (incluindo brancos e mestiços). A Guiné-Bissau – 767.469 recenseados cinco anos depois da independência, divididos em cerca de vinte etnias, as mais importantes das quais são os Balantas, os Fula (Peul), os Manjaco, os Mandinga (Malinké) e os Papel – é um pequeno implante lusófono na África francófona. O português é língua oficial, falada por 10 % dos habitantes, mas é o crioulo local a língua veicular, falada por 60% da população. A francofonia envolvente pode prejudicar, a prazo, a posição local do português. Em Cabo-Verde e em S. Tomé e Príncipe, os crioulos locais dominam.
Ortografias e oralidades A língua portuguesa segue duas normas ortográficas, a do Brasil e a de Portugal. A primeira, demograficamente dominante, não atingiu, no entanto, os PALOP’s, que seguem a norma do português de Portugal. Nos PALOP’s, porém, a língua falada manifesta tendência para se aproximar do português do Brasil, de vogais abertas, mais "sonoro" e mais fácil de aprender do que o português de Portugal. A par das actualizações ortográficas regulares, autonomamente feitas em Portugal e no Brasil, e que não interferem com a dupla ortografia de grande número de palavras, nem com a especificidade nacional de uma fracção do vocabulário, os sete países de língua oficial portuguesa tentaram, em 1990, a unificação das normas do português escrito. Um acordo foi virtualmente alcançado, mas não chegou a ser aprovado pelos poderes políticos dos parceiros e manteve-se "letra morta". Em matéria de dinâmica do vocabulário, o português do Brasil lidera a língua, pela rapidez com que incorpora novos termos, adaptando-se à mudança das línguas mais velozes a criar e socializar novos léxicos – designadamente o inglês. Em conjunto, o português apresentará, numa área tão sensível como o léxico técnico e científico, um atraso de cerca de 400 mil palavras face ao inglês – atraso partilhado, em menor grau, pelo espanhol. Em 1976, foi criado o Thesaurus luso-brasileiro, com o objectivo de padronizar e actualizar o léxico técnico e científico. A distância que separa o português do Brasil e o português de Portugal, em matéria de vocabulário e ortografia, condiciona a circulação dos produtos das respectivas indústrias de conteúdos, quando assentes sobretudo na língua escrita: o livro português entra mal no mercado brasileiro, se não adaptado ou "traduzido", e maus hábitos comerciais vieram acentuar essa rejeição. Pelo contrário, a penetração de produtos culturais e de entretenimento brasileiros em Portugal acentuou-se fortemente no último quartel do século XX: à tradicional boa recepção, em Portugal, da música popular brasileira, veio acrescentar-se a penetração maciça de produtos televisivos exportados pelo Brasil para todo o universo lusófono, a começar por Portugal. Lateralmente ao idioma propriamente dito, sumariemos em poucas palavras a situação dos crioulos gerados ao longo da história colonial: são hoje línguas vivas os crioulos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé, Príncipe e Ano Bom (os três últimos designados por crioulos do Golfo da Guiné); têm expressão residual os de Macau (sino-português), Ceilão, Malaca e Singapura (que sofreram influências decisivas do malaio e do inglês) e o Kriôl, ainda falado no Senegal; estão extintos os de Goa, Mangalor, Coromandel (indo-portugueses), Hong Kong (sino-português), o malaio-português de Java e os do Brasil (que eram falados por populações africanas em certas zonas do território).
Política da língua em Portugal (1) É banal, em Portugal, a ideia de que não existe uma política de defesa e de expansão da língua. Mas alguns passos têm sido dados, nos últimos anos, com vista a uma nova sustentação do país nesta matéria. Refira-se em primeiro lugar, dada a importância adquirida, no último quartel do séc. XX, pela televisão como medium privilegiado da "cultura popular", a criação nos anos 90, pela RTP, de um Canal África e da RTP Internacional, esta especialmente dedicada às comunidades portuguesas. É cedo para avaliar resultados destas experiências, mas elas não deixarão de aumentar a audibilidade do português de Portugal no mundo lusófono. Um Canal Brasil deveria entrar em funcionamento ainda em 1999. O Instituto Camões visa, entre as suas prioridades, apoiar e difundir o português e a aprendizagem da língua. Do Orçamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros para 1997 (48 milhões de contos), o Instituto terá recebido 3,2 milhões, além de mais 200 mil para a instalação de centros culturais no estrangeiro. Os 159 leitorados espalhados pelo mundo absorvem 1,44 milhões de contos anuais, a que se acrescentam pequenas verbas para actividades de apoio: 15 mil contos para jornais, cinco mil para livros, pouco mais de mil para viagens, três mil para conferências de autores e professores portugueses no estrangeiro, pouco mais de 1.500 para formação. Entre 15 e 20 mil contos são gastos no envio de publicações directamente para os leitorados. O Instituto pretende estar presente na Internet e tenciona editar biografias de grandes vultos da cultura portuguesa e lusófona, mas são escassos os seus meios para instalar novos centros culturais e melhorar os serviços dos existentes. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), criada em 1996, visa, entre outros objectivos, a defesa do idioma, e da sua projecção internacional. No seu âmbito, em 1998, foi decidida a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que se localizará na Cidade da Praia (Cabo Verde). O facto de o português ser uma língua falada, hoje, por mais de 200 milhões de pessoas, torna-a, em termos demográficos, uma das "grandes línguas" mundiais. A situação do espanhol não é estruturalmente distinta da do português, mas as diferenças entre os dois universos favorecem o espanhol: a influência política, económica e cultural do universo hispanófono, quer na sua vertente europeia quer no continente americano (incluindo a crescente relevância do espanhol nos E.U.A., onde se tornou claramente na segunda maior língua materna), faz a diferença. A importância demográfica do Brasil, a política exterior brasileira com a sua nova agressividade no espaço lusófono, a nova visibilidade e integração europeia de Portugal e a evolução da posição da língua colonial nos PALOP’s determinarão a influência e o peso do português no mundo de amanhã.
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